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Fernando Costa Netto e Rogério Assis falam da exposição PIIOTOS SP – NY

A exposição PIIOTOS ocorrerá simultaneamente em São Paulo e Nova York, no espaço Soma e na 1500 Gallery. Para conhecer um pouco mais sobre o projeto entrevistamos Fernando Costa Netto, o Dandão, curador da exposição, e Rogério Assis, um dos 22 fotógrafos que participam deste belíssimo projeto e fotógrafo do Samba (conheça o acervo dele aqui). A exposição começa no dia primeiro de setembro no espaço Soma e no dia sete na 1500 em Nova York.

Agora vamos pro papo!

OLD: Como foi o processo de criação deste projeto?

Fernando: Usei a minha base de emails da Mostra São Paulo de fotografia, a do Sambaphoto e a do Machado, que trabalha com fotografia, e disparei mais de 300 emails para fotógrafos profissionais de São Paulo com as informações do projeto. Recebi cerca de 60 fotos e selecionei 22, que são as que serão expostas aqui e em NY. É a amostragem mais importante já feita das torres, uma reunião inédita da fotografia brasileira sobre o WTC, está criado um documento.

Quais são os objetivos da curadoria nesta exposição? Há algum aspecto específico do WTC que foi destacado?

F: A ideia é a homenagem da fotografia de São Paulo à cidade de NY. Inicialmente havia solicitado imagens feitas entre os anos 70 e 2001. Bem, 4 ou 5 dos selecionados tinhas fotos feitas nos anos 70, mas preferiram mandar outras dos anos 80 e 90.  A foto mais antiga é a do Paulo Vainer, de 1981. Duas delas são posteriores a 2001, a do Claudio Versiani e do Lufe Gomes, são imagens  incríveis que conversam  muito as outras 22 e complementam o trabalho.

O ataque do WTC é um dos eventos mais importantes e marcantes deste século. Como a exposição aborda isso? Qual a importância de realizar este trabalho 10 anos depois do atentado?

F: A exposição não aborda os ataques diretamente, são registros que relembram e reverenciam um ícone destruído de forma tão trágica e que fez 3 mil vítimas civis. A importância desse trabalho é a aproximação da fotografia de São Paulo e brasileira com a cidade de Nova York e a nossa reverência. É uma forma de dar um abraço nos cidadãos de Manhattan numa efeméride trágica que traz lembranças terríveis.

Um dos aspectos interessantes de PIIOTOS é a simultaneidade entre São Paulo e Nova York. Como foi lidar com a construção da exposição em dois espaços tão distantes?

F: É um trabalho que me deu muito prazer, com inúmeros detalhes, diversas pessoas envolvidas, que demandou muita atenção na produção e que só pode ser realizado porque a Canon entendeu a mensagem e abraçou a causa. Nenhuma outra marca poderia legitimar tanto essa exposição quanto a Canon, líder mundial de mercado, com propriedade enorme para levantar a bandeira de um tema delicado. Quando resolvi fazer essa exposição sabia a limitação de patrocinador que eu teria, tive sorte de encontrar o ideal.

As imagens, apesar de tratarem de um mesmo tema, tem estilos muito diferentes. Como a curadoria e a montagem estão pensando a organização destas imagens?

F: Realmente são 22 fotos muito diferentes uma da outra e essa diversidade de olhares enriquece o projeto. Optei pela estética, planos e ângulos que apresentassem as torres  de diversos ângulos. Há fotos da esquina, de baixo, do roof, do outro lado do rio hudson, da barca, do Empire State building, do elevador que dava acesso ao 147 andar…

OLD: Como você entrou para o projeto?

Rogério Assis: Recebi um email do Dandão me convidando, fiz uma seleção das imagens que eu tinha. Mas quando ele pediu imagens da torre, até brinquei que as torres eram uma coisa que eu fugia em Nova York. Acho que nenhum fotógrafo foi pra Nova York com o objetivo de fotografar as torres, até porque aquele negócio era horroroso, acho que o Bin Laden prestou um desserviço à cidadania e um serviço à arquitetura. Estragava todo o skyline de Nova York, quem viu com torres e vê agora, percebe que é outra coisa.

Eu estava morando lá, estudando, fazendo uma graduação em mídias digitais. Meu trabalho de conclusão estava pronto, chamava New York in a hurry, eu apresentei ao orientador que disse que o trabalho estava muito  bom, mas precisava de uma foto de Nova York, precisava deixar claro aonde se passavam as cenas, pois o trabalho era todo em velocidade baixa, muito riscado, etc. E realmente só quem vive lá conseguiria identificar alguns lugares, não tinha uma foto da cidade de Nova York. Fiquei pensando em como resolver isso, uma noite me deu um estalo e fiz meia dúzia de cliques e  essa foto [que está na exposição] propositalmente tremida, pra dar essa sensação da cidade que não pára. Eu morei lá duas vezes, durante três meses e depois um ano, e [as torres] era um lugar que eu achava muito feio. Embaixo tem um parque maravilhoso, muitos prédios bonitos em volta e ficava aquele negócio muito feio mesmo. Só subi uma vez lá e não fiz nenhuma foto porque eu fiquei correndo atrás do meu filho que tinha dois anos [risos].

Você tem um trabalho bastante diferente dos outros fotógrafos da exposição. Trabalha com movimento, desfoque. Conte um pouco da sua técnica e da linguagem que aplica no seu trabalho.

R: Eu gosto de trabalhar com movimento e com exposições mais longas. Na verdade, essa imagem [da exposição] faz parte de um conjunto, que até virou uma exposição lá em NY em 1999. Esta foto foi feita assim propositalmente para ter a ver com a linguagem do trabalho que eu estava desenvolvendo. Eu não tenho uma foto tradicional do skyline de NY. Até porque eu achava feio com as torres. Voltei algumas vezes depois de morar lá e ficou muito mais bonito assim, a princípio ficou muito mais triste, mas visualmente ela ficou bem mais bacana.

Rogério você é de Belém, trabalha em São Paulo e já trabalhou para a SABA dos EUA. Qual é sua relação com estas cidades? Qual a importância do registro delas dentro da sua produção?

R: Em Belém eu nunca trabalhei, eu vim de lá começando a fotografar, trabalhei muito pouco lá, era estagiário de uma produtora de vídeo como fotógrafo e logo mudei pra São Paulo e comecei a trabalhar como fotógrafo aqui. Só fotografei Belém profissionalmente, só com trabalhos por encomenda. Nunca fotografei a minha cidade pra mim. Nunca tive essa curiosidade, não sei porque… São Paulo é o lugar que eu escolhi pra morar e viver, já fiz alguns trabalhos bacanas que eu gosto, já usei outras técnicas que não essa da exposição mais longa. Eu fiz um trabalho aqui pros 450 anos de São Paulo, que eu filmei a cidade e fotografei meu próprio filme depois, é um trabalho que eu gosto bastante. Está no livro chamado Inspiração, sobre os 450 anos de São Paulo, com 10 ou 12 fotógrafos.

Vou ser bem sincero, eu não tenho um foco definido pra minha fotografia. Eu gosto muito de variar, muito, muito. Ultimamente tenho sentido muita falta de fotografia mesmo, porque com a fotografia digital, o photoshop e os aplicativos de celular, etc. a imagem está muito banalizada, e as pessoas perderam o poder de observação das coisas. Eu brinco que o mundo virou um grande grupo de turistas japoneses, que não quer observar mais nada, só quer clicar e ver depois na tela do seu computador. Hoje eu tenho fotografado muito menos, selecionado muito mais e tenho optado por fotografar tradicionalmente.

Fernando: Mas em filme?

Rogério: Em filme tá difícil. Eu fiz um trabalho com os índios Zoé, que deve sair em livro até o final deste ano, todo em Hasselblad com filme. Agora a maioria dos trabalho eu faço em digital e depois faço a conversão para PB. É legal o exercício de imaginar a fotografia em PB através de um visor em cores, imaginar tons de cinza, porque eu tinha perdido isso, agora este processo tá retornando pra minha cabeça. Foi um esforço grande voltar a pensar assim.

Como vocês vêem SP e NY, mais parecidas ou mais diferentes?

R: Acho que não tem nada a ver uma coisa com a outra, todo mundo faz essa comparação, mas pra mim NY tem muito mais a ver com o Rio de Janeiro do que com São Paulo. NY tem praia, todos moram apertados, como no Rio, ninguém fica em casa em NY. E como no Rio de Janeiro, as pessoas te convidam pra ir na casa delas mas não dão o endereço. [risos]. Agora em São Paulo eu fico sempre em casa ou na casa dos meus amigos, aqui eu saio muito pouco. Não vejo nenhum traço de semelhança entre SP e NY, a não ser que ambas são as cidades que movem seus países.

F: Econômica e politicamente elas são semelhantes, no que elas representam para Brasil e EUA, elas são bem parecidas.

R: São Paulo não é um retrato do Brasil e  NY não é um retrato dos EUA. Qualquer pessoa que viajou pra lá e foi pra fora de NY tem essa sensação. NY é uma capital do mundo, assim como São Paulo. Essas cidades tem a função de levar o país pra frente,  mas não são de maneira nenhuma retratos de seus países.

Entre os 22 fotógrafos do projeto PIIOTOS, 12 são do Samba! Estão participando: Ângelo Maciel, Bob Wolfenson, Cassio Vasconcellos, Elisabetsky, Mario Fontes, Paulo Fridman, Paulo Vainer, Roberto Linsker, Rogério Assis, Tuca Reinés , Walter Nicolau e Victor Andrade.

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