O MAC USP abriu em novembro a exposição Fotógrafos da Cena Contemporânea. A exposição é composta por sessenta e três fotografias do acervo do Banco Santos, atualmente sob a guarda do Museu e conta com os fotógrafos Fábio Cabral e Felipe Goifman, do Samba, além de grandes nomes como Claudio Edinger, Cris Bierrenbach e muitos outros. A exposição apresenta um panorama muito interessante da produção fotográfica a partir dos anos 50 e conta com duas salas, sendo uma restrita para maiores de 18 anos, abordando temas relacionados à sexualidade dentro desta produção fotográfica.
Para discutir e conhecer melhor este projeto, a OLD entrevistou a curadora, Helouise Costa:
A ideia da exposição “Fotógrafos da Cena Contemporânea” surgiu a partir da necessidade de chamar atenção da sociedade para a importância da Coleção do Banco Santos e de sua permanência em instituições públicas. A coleção que pertenceu a este Banco foi confiscada após denúncia de crimes contra o sistema financeiro e transferida, em 2005, para sete museus da cidade de São Paulo, entre os quais o MAC-USP e corre o risco de ser retirada dessas instituições para pagar as dívidas do Banco. É preciso atentar para a inexistência de um patrimônio fotográfico semelhante em território nacional. Além disso não se pode deixar de apontar as inúmeras possibilidades que esta coleção oferece para o estudo da fotografia, não só nacional como estrangeira.
O termo “fotografia contemporânea” é um muito difuso e refere-se a um vasto leque de práticas surgidas a partir do final da década de 1960 no campo da fotografia. De uma maneira geral podemos afirmar que se trata de uma produção que aponta para uma mudança radical na atitude do fotógrafo/artista que passa a empregar o dispositivo fotográfico em sentido amplo. Isso inclui não só a tomada tradicional com a câmera, mas também os mais diversos tipos de experimentações, como encenações, manipulações, hibridações com outros meios e o uso de recursos digitais. Talvez o mais característico da fotografia dita contemporânea seja justamente a mudança de atitude do fotógrafo em relação ao meio e não algo que se encontra na fotografia em si. Daí eu ter evitado nomear a exposição a partir dessa classificação e optado por tratar de produções que abordam questões culturais da cultura contemporânea por meio da fotografia.
Essa temática teve uma presença muito forte entre as décadas de 1980 e 1990, especialmente no contexto norte-americano, por meio do trabalho de fotógrafos como Robert Mapplethorpe, Nan Goldin, Andres Serrano e Joel-Peter Witkin (sendo que estes dois últimos têm fotos na exposição). Eles desempenharam um importante papel ao abordar temas considerados tabu, como sexo, escatologia e morte, colocando em xeque o conservadorismo vigente da era Reagan. Embora hoje estejamos em outro contexto, no mundo globalizado, parece-me que esses trabalhos ainda mantém sua atualidade, basta ver dois casos recentes. Andres Serrano teve suas fotografias atacadas por fanáticos em abril de 2011, numa exposição na cidade de Avignon, na França, ao passo que a mostra de Nan Goldin foi censurada no Rio de Janeiro, em novembro deste mesmo ano, pelos burocratas de uma empresa de telefonia celular. Esses exemplos, a meu ver, mostram que o potencial questionador dessa produção ainda está longe de se esgotar e que ela ainda é capaz de testar os limites da tolerância diante da diversidade e da flexibilização dos costumes.
Fotógrafos da cena contemporânea fica no MAC USP até o dia 15 de Abril e pode ser visitada de terça à domingo das 10h às 18h, na Cidade Universitária.
Conheça o acervo de Fábio Cabral e Felipe Goifman no Samba!