Enviado por Rogério Assis
30 de abril de 2009 by JulianeHa cerca de 2 semanas recebi um e-mail do meu amigo Adi Leite com uma carta do Bob Wolhein tentando explicar o fim do Fotosite. Não me surpreendeu.
Pra mim pareceu que o objetivo da carta era divulgar o lançamento de novos titulos usando o prestígio que o Fotosite amealhou junto a comunidade fotográfica, como se os novos projetos fossem uma continuidade da idéia inicial que eu, Adi, Marcelo e Pisco tivemos em 2002. Não são!
Não vou tecer nenhum comentário sobre o fechamento do Fotosite, já que deixei a empresa em 2002 e não acho correto fazer observações sobre a gestão de negócios alheios, mesmo porque não sou comentarista de economia.
No entanto me sinto à vontade para comentar a carta, já que nela fui citado mesmo sem ter sido ouvido e o conteúdo me afeta enquanto um dos criadores do Fotosite.
Os argumentos usados pra justificar o fim do Fotosite não se sustentam. Não posso entender como o advento de novas tecnologias podem atrapalhar o desenvolvimento de uma publicação eletrônica, isso pra mim não faz muito sentido.
O novo portal as usa em profusão, sem muito critério na minha opinião, coisa que era um dos pilares na idéia inicial do Fotosite. Critério, é um dos pilares do bom jornalismo.
Como é que se pode pensar em conteúdo com “Desprendimento de meios, tecnologias e paradigmas”, se é justamente nisso que se baseia a criação editorial
Sem o tal do critério lê-se por exemplo na home de hoje do novo portal, as seguintes frases:
“Some gente alegre a cores intensas, e terá como resultado um festival vibrante de texturas inimagináveis. Que a Índia guarda belezas centenárias, todo mundo sabe…” Essa matemática não fecha. Me parece que a Índia não é um país centenário, mas milenar.
“Olhando, ou melhor, pirando no trabalho da alemã Claudia Rogge fiquei me perguntando o que mais chamava a atenção. As cores? A falta de cores? O tanto de gente junta ou espalhada em cada foto? Difícil explicar.” Eu diria que é impossível explicar.
“Já imaginou ter acesso ao maior acervo particular de fotografias do mundo? Se já imaginou, mas ainda não havia tido a oportunidade, aproveite a exposição Olhar e Fingir”. A exposição é fantástica, merece uma apresentação menos confusa.
Todos textos em primeira pessoa. Nenhum assinado. Isso nunca se viu no Fotosite, pelo menos enquanto um de nós 4 esteve lá.
Editorial não é publicidade ou “brand entertainment”, termo novo pra definir velhos conceitos.
Reportagem é pra ser feita com pesquisa e embasamento. Como é que se pode chamar o Luiz Braga de “ fotógrafo da fauna e da flora amazônica”. Eu nunca vi nenhum passarinho fotografado por ele.
Isso é apenas uma das pérolas “jornalísticas” que li antes de deixar de acessar o Fotosite.
Publicitário faz anuncio, ajuda a vender produtos, cria conceitos de marcas…
Jornalista cria veículos com conteúdo pro publicitário colocar seus anúncios…
Editorial não é publicidade. Se fosse, os jornalistas seriam ricos e os publitários pobres.
Não tenho nada pessoal contra o Bob, até admiro sua boa vontade em fazer produtos voltados para fotografia, o que todos nós que trabalhamos nesse mercado sabemos que é muito complicado.
Jamais ouvi do Pisco ou do Marcelo, que continuaram no Fotosite junto com ele, nada além de elogios a sua postura ética e profissional. Posso dizer o mesmo, pois trabalhei com ele na Starmedia.
Minha divergência se da no campo editorial. O que ele propõe como continuidade do Fotosite não é nem de longe a nossa idéia inicial de criar um espaço pra se discutir fotografia profunda e democraticamente.
Vê-se pela linha fina do portal: Imagens, Imagens, Imagens.
A Fotografia vai muito além de ser apenas imagens, imagens, imagens.
Pra se falar de fotografia precisa-se primeiro entender a diferença entre ver e enxergar.





